August 2005 | This Issue

Andréa Carvalho

clique aqui para inglês

Visões

 Evoé Tá na Rua!

U
m olhar inesperado sobre nosso tempo irá notar uma crise em toda produção artística. Todo artista criador percebe um mesmo estado de coisas: o teatro está morto, a canção está morta, as palavras estão mortas, os escritores estão sozinhos, a platéia está vazia.

O ensaio de Knocker e Cook, "The post modern scene – excremental culture and hyper aesthetics", diz sobre o estado de espírito de nosso tempo: "As palavras não são mais necessárias, são meramente a pose sedutora que atrai o olhar do turista. Códigos não são mais requisistados, já que o silêncio foi eliminado. (...) Nós temos a informação e a teoria. Nós temos a experiência; não temos que desejar saber, nós sabemos só pelo "divertimento", escrevemos por "divertimento", assim como pensamos, fazemos amor, parodiamos e elogiamos".

Como uma obra de arte pode se colocar em meio a esse estado de coisas?  Não somente no campo da arte mas em qualquer campo da vida temos fragmentação, uma cultura trompe l'oeil ao redor, onde tudo parece mas não é. A simples leitura de um texto, por exemplo, leva muito, muito do nosso tempo, estamos todos muito ocupados, então fica fácil repetir códigos velhos e fora de uso, em vez de criar não apenas por divertimento.

Se existe uma crise, parece que é a do pensamento, não do aprendizado (alguns filósofos já disseram isso) . E no teatro, a crise parece ser a da criação pois que não há mais nada para saber (medo e solidão).

É difícil admitir que ainda acreditamos em velhas coisas. Velhas e estranhas coisas e valores  e códigos nutrindo a esperança  de que uma mudança possa ocorrer. O melhor é se adaptar ao caos, não há saída.

Arte não tem mais ideologia, é só para o divertimento. É melhor gargalhar sobre o nada do que ficar espantado e confuso com uma peça em um palco. É difícil perguntar: mas que diabos sou eu? Nós não ousariamos tanto.

MAS alguns artistas tem atitudes destemidas e encontram seu lugar no caos contemporâneo. Amir Haddad é um deles. Seu grupo, o Tá na Rua, está celebrando 25 anos de existência neste ano de 2005. Amir é uma das melhores escolas que um artista pode ter, estar perto dele é uma lição de arte em todos os sentidos, prazer, consciência e admiração. Em Amir Haddad encontramos também uma força inteligente que vai além.

O Tá na Rua começou como um grupo de pesquisa sobre teatro popular, até 1980, quando decidram criar uma companhia de teatro e encenar "Morrer pela Pátria". Importante lembrar que nesta época o Brasil vivia sob um regime ditatorial violento (que durou até 1984). O Tá na Rua encenou sua primeira peça, de forte conteúdo político, em um momento de tensão  para os artistas no Brasil.

Já que o teatro profissional não dava condições de uma discussão social, política e cultural, o Tá na Rua buscou o teatro popular, aproximando o ator do público. É comum encontrar o grupo em praças e ruas, com roupa colorida, música e no meio de um círculo de pessoas que se juntam para vê-los, por exemplo, apresentar "Dar não dói, o que dói é resistir"', a mais recente produção do grupo que será encenada de 31 de agosto a 5 de setembro em Paris, na França, e depois em Madri, Espanha. Formando o círculo, temos de tudo: aqueles que estão passando pelas ruas e aqueles que vivem nas ruas, os "sem teto" tão comuns na cidade do Rio de Janeiro.
Essa integração no coletivo é um dos propósitos e intenção do trabalho, como eles mesmos dizem em seu manifesto artístico:

 "Descobrimos um ator que não é diferente do povo a quem ele se dirige e com quem quer exercitar sua arte. Um ator aberto, lúcido, generoso no coração e capaz de acreditar na força transformadora do seu ofício. Um ator que fertiliza e se deixa fertilizar pelas centenas de encontros em praças, ruas e salas, com pessoas tão ou mais inquietas que ele próprio. Um ator que é impulsionado pela força e energia de sua vocação para o prazer, a alegria, a felicidade".

Evoé Tá na Rua! Não só pelo divertimento, mas pelo total compromisso nestes 25 anos. 

©2005 Andréa Carvalho
©2005 Publication Scene4 Magazinel

Andréa Carvalho é produtora e escritora no Rio de Janeiro.
Além de ser bilíngüe, é "mãezinha"
de duas adoráveis crianças

Mais comentários e artigos de
Andréa Carvalho, confira em Arquivos (Archives)

clique aqui para ler este artigo em inglês

Your Comments Are Appreciated -Click

 

 

All prior issues are secured in the Scene4 archives.
To access the Archives:

Scene4 Archives-Click
Scene4 Magazine Subscribe

Scene4 Email This Page To A Friend-Click

© 2000-2005 Scene4 - International Magazine of Performing Arts and Media - AVIAR-DKA Ltd. All rights reserved (including author and individual copyrights as indicated). All copyrights, trademarks and servicemarks are protected by the laws of the United States and International laws. Reproduction in whole or in part without permission is prohibited.