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 m olhar inesperado sobre nosso tempo irá notar uma crise em toda produção artística. Todo artista criador percebe um mesmo estado de coisas: o teatro está morto, a canção está morta, as palavras estão mortas, os escritores estão sozinhos, a platéia está vazia.
O ensaio de Knocker e Cook, "The post modern scene – excremental culture and hyper aesthetics", diz sobre o estado de espírito de nosso tempo: "As palavras não são mais necessárias, são meramente a pose sedutora que atrai o olhar do turista. Códigos não são mais requisistados, já que o silêncio foi eliminado. (...) Nós temos a informação e a teoria. Nós temos a experiência; não temos que desejar saber, nós sabemos só pelo "divertimento", escrevemos por "divertimento", assim como pensamos, fazemos amor, parodiamos e elogiamos".
Como uma obra de arte pode se colocar em meio a esse estado de coisas? Não somente no campo da arte mas em qualquer campo da vida temos fragmentação, uma cultura trompe l'oeil ao redor, onde tudo parece mas não é. A simples leitura de um texto, por exemplo, leva muito, muito do nosso tempo, estamos todos muito ocupados, então fica fácil repetir códigos velhos e fora de uso, em vez de criar não apenas por divertimento.
Se existe uma crise, parece que é a do pensamento, não do aprendizado (alguns filósofos já disseram isso) . E no teatro, a crise parece ser a da criação pois que não há mais nada para saber (medo e solidão).
É difícil admitir que ainda acreditamos em velhas coisas. Velhas e estranhas coisas e valores e códigos nutrindo a esperança de que uma mudança possa ocorrer. O melhor é se adaptar ao caos, não há saída.
Arte não tem mais ideologia, é só para o divertimento. É melhor gargalhar sobre o nada do que ficar espantado e confuso com uma peça em um palco. É difícil perguntar: mas que diabos sou eu? Nós não ousariamos tanto.
MAS alguns artistas tem atitudes destemidas e encontram seu lugar no caos contemporâneo. Amir Haddad é um deles. Seu grupo, o Tá na Rua, está celebrando 25 anos de existência neste ano de 2005. Amir é uma das melhores escolas que um artista pode ter, estar perto dele é uma lição de arte em todos os sentidos, prazer, consciência e admiração. Em Amir Haddad encontramos também uma força inteligente que vai além.
O Tá na Rua começou como um grupo de pesquisa sobre teatro popular, até 1980, quando decidram criar uma companhia de teatro e encenar "Morrer pela Pátria". Importante lembrar que nesta época o Brasil vivia sob um regime ditatorial violento (que durou até 1984). O Tá na Rua encenou sua primeira peça, de forte conteúdo político, em um momento de tensão para os artistas no Brasil.
Já que o teatro profissional não dava condições de uma discussão social, política e cultural, o Tá na Rua buscou o teatro popular, aproximando o ator do público. É comum encontrar o grupo em praças e ruas, com roupa colorida, música e no meio de um círculo de pessoas que se juntam para vê-los, por exemplo, apresentar "Dar não dói, o que dói é resistir"', a mais recente produção do grupo que será encenada de 31 de agosto a 5 de setembro em Paris, na França, e depois em Madri, Espanha. Formando o círculo, temos de tudo: aqueles que estão passando pelas ruas e aqueles que vivem nas ruas, os "sem teto" tão comuns na cidade do Rio de Janeiro.
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Essa integração no coletivo é um dos propósitos e intenção do trabalho, como eles mesmos dizem em seu manifesto artístico:
"Descobrimos um ator que não é diferente do povo a quem ele se dirige e com quem quer exercitar sua arte. Um ator aberto, lúcido, generoso no coração e capaz de acreditar na força transformadora do seu ofício. Um ator que fertiliza e se deixa fertilizar pelas centenas de encontros em praças, ruas e salas, com pessoas tão ou mais inquietas que ele próprio. Um ator que é impulsionado pela força e energia de sua vocação para o prazer, a alegria, a felicidade".
Evoé Tá na Rua! Não só pelo divertimento, mas pelo total compromisso nestes 25 anos.
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