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march 2008

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por Andrea Carvalho Stark

Muitos acreditam serem os artistas os √ļnicos capazes de desvirtuar as virtudes. Plat√£o fez bem em expuls√°-los de sua Rep√ļblica. Quem precisa deles para compor um mundo ordenado? A arte √© algo da desordem, apesar de seu valor e express√£o estarem deslocados, assim como deslocaram as vontades e os desejos para servi-los ao capital.

Talvez por esse lugar histórico, viver de arte seja considerado uma arriscada escolha. Principalmente se for uma dessas artes da palavra. Essa é o tipo de atividade quase devota a si mesma, solitária e silenciosa. Um esforço de inventar-se e reinventar-se pois há poucas alternativas: matar um cachorro por dia ou se matar junto com o cachorro nosso de cada dia. Alguns escolhem matar o cachorro.

Fernando Bonassi sabe quais os cachorros s√£o poss√≠veis matar e em quais quintais eles est√£o. √Č um escritor perplexo pelo quintal que o cerca, vivendo das v√°rias frentes de trabalho que a atual ind√ļstria cultural oferece. Mesmo no Brasil. Arte. Muito trabalho. 

Profissão: Escritor. Vocação: Escritor. Paixão: Literatura.

Aos 45 anos, esse escritor paulista - nascido no bairro da Mooca - se tornou um dos nomes mais atuantes da atual literatura brasileira. E transita com desenvoltura  por v√°rias linguagens: cinema, teatro, televis√£o, literatura ficcional, cr√īnica jornal√≠stica.

Fernando Bonassi nos recebeu meio a sua temporada carioca da pe√ßa "O incr√≠vel menino da fotografia", que ele escreveu e dirigiu, e esteve em cartaz no Centro Cultural da Caixa Econ√īmica Federal no Rio de Janeiro no in√≠cio de dezembro de 2007. A conversa versou sobre literatura, sexo, televis√£o, cinema, amor, dores, teatro, fam√≠lia e alguns outros mundos desordenados – enquanto deixava ele transparecer certo brilho nos olhos que v√™em tudo, apesar de escondidos por tr√°s dos √≥culos estreitos.

Ao transcrever essa entrevista desejamos manter, ao máximo, o prazer de um encontro. E essa escolha em manter o frescor de um momento talvez ensine aos outros algo que eu mesma aprendi com ele: a crença na arte de matar cachorros para construir paisagens.

Você vive só do que escreve?

Sim, talvez eu fa√ßa parte da primeira gera√ß√£o no Brasil que consegue isso. N√£o √© comum. E acho que a literatura brasileira √© pouco ousada e covarde porque os escritores s√£o diplomatas ou funcion√°rios p√ļblicos, t√™m rela√ß√Ķes prom√≠scuas com o Estado, a maior parte deles. Acho que a falta de ousadia passa tamb√©m por isso. Mas tamb√©m eu reconhe√ßo que fa√ßo parte de uma gera√ß√£o de escritores brasileiros que pela primeira vez tem a sua disposi√ß√£o uma ind√ļstria cultural. E quando eu digo isso, n√£o digo que vivo de livro, mas sim do meu texto de fic√ß√£o: palestras, pe√ßa de teatro, roteiro de cinema, imprensa, confer√™ncia.

Como você organizou essa carreira como uma forma de sobrevivência?

Um conjunto de reacion√°rios italianos da minha fam√≠lia me ensinou que devemos fazer alguma coisa na vida da qual se consiga viver e ser feliz. Por viver em fam√≠lia de oper√°rios, eu sempre imaginei que eu ia ter que fazer algo que pudesse pagar minhas contas. A id√©ia de educa√ß√£o n√£o havia na minha casa. Eu fui a  primeira pessoa  da minha fam√≠lia a entrar em uma universidade. Sempre escrevi sabendo que teria que negociar . Acho que √© poss√≠vel fazer um roteiro na Globo Filmes e manter alguns aspectos autorais, nem sempre, eu j√° sa√≠ de alguns, j√° fiquei em outros, mas eu sempre me preparei para produzir minha arte voltada a essa ind√ļstria cultural. E encarar a literatura como trabalho.

Sem pudores nenhum?

O pudor não é da relação profissional. Não vou escrever para gente reacionária. Na imprensa é possível fazer uma coisa pessoal, não na TV escrevendo ficção. Na Folha (de São Paulo), eu fazia uma coluna que era um conto e nunca fui tolhido por isso.

Quando falo pudor √© dos pr√≥prios artistas em vender seu  trabalho.

Isso √© uma doen√ßa, uma id√©ia burguesa de quem tem heran√ßa do papai pra receber. Eu tenho que pagar minhas contas, n√£o vou escrever para a direita mas, por exemplo, fiz o roteiro de um filme, o "Cazuza – o tempo n√£o p√°ra". que est√° longe de ser um filme bom, √© ruim. Mas  batalhamos para ser apenas uma mediocridade. Se deix√°ssemos na m√£o da Globo Filmes, seria uma total mediocridade. O filme √© uma porcaria, como tudo que a Globo sempre faz. √Č um modelo de fic√ß√£o vendido. Eu acho que os autores de novela  tinham que ser processados criminalmente porque quando se fica 40 anos  dizendo para uma mulher que a √ļnica solu√ß√£o para ela √© se casar e para o homem √© enriquecer, isso vira valor social. √Č o m√©todo de Goebbels,  repita a mentira at√© eles acreditarem.

Incr√≠vel  √© nos dias de hoje n√£o haver ainda com naturalidade nas novelas uma fam√≠lia de negros como uma fam√≠lia qualquer, por exemplo.

Mas o problema n√£o √© esse, √© o modo de se contar a hist√≥ria,  √© o tipo de hist√≥ria que se conta. √Č de forma o problema,  n√£o de conte√ļdo. N√£o basta tirar a loira e botar a negra. N√£o se pode ter a ilus√£o de que se vai trabalhar na Globo e fazer o que se quer.  E isso eu n√£o quero pra mim. Mas eu s√≥ digo isso aqui porque, pela primeira vez, a minha gera√ß√£o tem op√ß√Ķes de trabalho fora dessa emissora. A ind√ļstria cultural aumentou muito, e esses poderes concentrados est√£o cada vez mais amea√ßados.

Voc√™ n√£o acha que os trabalhos de Luiz Fernando de Carvalho rompem um pouco isso? 

Não basta botar celofane em um pedaço de ferro.

E é esse o modelo de teledramaturgia que está sendo repetido por todas as outras emissoras.

Mas  as pessoas querem repetir at√© fracassar porque ningu√©m gosta de mudar.

√Č poss√≠vel ent√£o viver de literatura?

Sim! Existe trabalho. Escrever literatura é algo muito sofisticado.

E nem tanta gente consegue fazer bem.

Não sei... Tem muita gente fazendo e tem trabalho pra muita gente. Tem é que trabalhar! Eu acordo todo dia às 8 horas da manhã e sigo até às 6 da tarde. Às vezes sai coisas lindas, outras uma bosta, às vezes tem encomenda, às vezes não. Mesmo quando não tem, eu sempre estou fazendo alguma coisa.

Você tem uma ligação com o teatro mais visceral do que com o cinema.

Claro, cinema é pra ganhar dinheiro.

Então, por que você foi estudar cinema, fazer faculdade, o que você buscava nesse tipo de formação?

Eu havia assistido a um filme, "Hiroshima mon amour" de Alain Resnais, com roteiro da Marguerite Duras. Vi aquilo e pensei: isso √© imposs√≠vel se fazer em livro. A impress√£o que tive era a de uma outra linguagem mesmo. Fui fazer faculdade de cinema querendo provocar aquele tipo de inc√īmodo nas pessoas.

Quando assisti √†quele filme, disse que queria fazer aquilo, ter aquela linguagem a minha disposi√ß√£o. Mas durante a gradua√ß√£o vi que era uma roubada porque √© muito dif√≠cil de se fazer. Um pequeno filme brasileiro custa 500 mil d√≥lares e √© um inferno conseguir isso aqui, ningu√©m confia em ningu√©m. N√£o h√° financiamento pra uma coisa t√£o cara assim. E eu queria fazer alguma coisa para ser absolutamente senhor de mim, como sou escrevendo livro. A literatura  √© exerc√≠cio de homens e mulheres livres, n√£o tem patr√£o, voc√™ faz o que quer e com o que ou quem se quer... E isso vai decrescendo na medida em que a obra encarece ou n√£o. Teatro √© muito livre mas n√£o tanto quanto a literatura, cinema pode ser muito livre mas jamais t√£o livre quanto o teatro, isso tem a ver com a  quantidade de recursos envolvidos no mundo capitalista. Especialmente no Brasil, cinema √© muito concentrado, s√£o poucas pessoas que fazem, pessoas de tend√™ncia conservadora. √Č um cinema babaca,  sem nenhuma ousadia. Se voc√™ pegar o cinema argentino ou mexicano, que s√£o pa√≠ses pr√≥ximos a n√≥s, eles est√£o fazendo coisas melhores. O cinema brasileiro √© careta. Eu fiz doze filmes, tenho um curr√≠culo bacana, mas eu n√£o respondo por nenhum deles. Exceto "Os Matadores" que foi meu primeiro roteiro.

Nem o "Estação Carandiru"?

N√£o. No "Carandiru" ganhei dinheiro pra fazer. Era um diretor de sucesso, um livro de muito sucesso, peguei uma carona, fiz um trabalho razo√°vel. A import√Ęncia do filme transcendia a minha presen√ßa ali.

Você chegou a estudar teatro?

Nunca formalmente. Quando eu comecei a me interessar por ler, teve um momento que eu quis me formar. Comecei a ler os russos, os alem√£es, Shakespeare e assistia √†s provas do final de curso de Artes C√™nicas da USP. No final do curso, eles montam um texto de forma careta. Faziam Becket, Pinter... Ia ver isso pra conhecer os textos porque tinha pregui√ßa para ler teatro. Voc√™ tem que ter um preenchimento que um espectador de teatro n√£o tem. Eu decidi ir ao teatro antes de ler e achei isso muito interessante porque acontecia uma coisa ali que n√£o tinha a ver com literatura, a coisa f√≠sica do ator e  a troca com o espectador. Porque √© muito solit√°rio escrever literatura e achei que aquilo era muito bacana de se fazer.  Fui a um sebo e  comprei uns 10 livros de uma cole√ß√£o da Abril chamada "Teatro Vivo". E vi como se organizava o texto na p√°gina,  como a  id√©ia se distribu√≠a, j√° que n√£o tinha a descri√ß√£o. Foi assim que comecei a escrever teatro.  Minha primeira pe√ßa - Um c√©u de Estrelas -  n√£o virou teatro, virou filme primeiro.

Você assistiu a "Ovo Frito" aqui no Rio de Janeiro?

Assisti e adorei a encenação que o Moacir Chaves fez.

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Foi esse seu primeiro e acho que √ļnico espet√°culo aqui no Rio...

N√£o, aqui fiz "Woyzeck" com Matheus Nachtergaele. E "Apocalipse 1.11" que fiz a dramaturgia e n√£o foi bem aqui.

Mas "Ovo Frito" foi a √ļnica produ√ß√£o at√© agora no Rio de Janeiro, com texto seu,  que n√£o nasceu em S√£o Paulo. Como foi que chegou aqui seu texto?

Sim, voc√™ tem raz√£o, foi sim. Roberto Alvim que √© um dramaturgo aqui do Rio chamou dez escritores para uma mostra de  dramaturgos novos. A√≠ eu fiz o texto e mandei pro Roberto que  passou para o diretor que passou para a atriz. Foi um grupo que surgiu √† minha revelia. N√£o conhecia ningu√©m.

Quando você dirige um texto seu, há um certo estranhamento?

Não acredito na função do diretor. Isso é importante dizer. Acho que diretor não é necessário. Não acho que ele é importante. A necessidade de um diretor provocou a existência de atores cada vez mais medíocres e que se sujeitam a fazer as piores coisas porque não tem confiança em si próprios. Não acredito nisso.

Ent√£o voc√™  pega seu texto e trabalha como?

Eu sento com algumas pessoas inteligentes e digo: “Como vamos fazer isso, meu caro?  Eu escrevi pensando assim.”

E pensando em você? Tem isso de escrever para tal ator?

N√£o, n√£o!  Eu escrevi (O incr√≠vel menino da fotografia) para outro ator. Conheci o Eucir (de Souza) depois. Achei que ele era melhor do que quem eu havia pensado anteriormente e dei o texto pra ele. A gente l√™ e come√ßa a tomar decis√Ķes. N√£o √© um trabalho de mesa no sentido cl√°ssico. Eu tinha certeza que o menino (da pe√ßa "O Incr√≠vel Menino da Fotografia") ia se mover, fumar um cigarro, se levantar, comer uma ma√ß√£. No primeiro dia a preparadora corporal, o Eucir, e o maquinista disseram – “Mas se ele est√°  na fotografia porque ele vai se mexer?” Mas √© claro! Ele tem que ficar parado e todo o movimento ocorreria  em um determinado espa√ßo. Eu me sento diante do ator e digo o que fiz e o que quis ao escrever, o que  pensei e como imaginei que ele pudesse aparecer. Para mim, n√£o √© importante o que se v√™, isso vem depois. Importante √© a m√ļsica do que est√° se dizendo. Eu queria dizer o que aquele menino diz mas n√£o sabia que ele ia estar naquele cen√°rio. No texto, eu descrevo uma rubrica de um cen√°rio que n√£o √© uma foto, √© o cen√°rio de uma foto. Foi a diretora de arte que teve a id√©ia de transformar em uma foto e melhorou muito porque est√°vamos fazendo na mesinha e quando voc√™ v√™ no ch√£o fica med√≠ocre.

Ent√£o no teatro voc√™ negocia bem com todas as colabora√ß√Ķes.

Eu escrevo sob encomenda. Ent√£o estou acostumado a  escrever um conto para a Folha, com prazos, tamanhos, verbas. Esse tipo de rela√ß√£o √© de negocia√ß√£o. Eu sou contratado para escrever roteiros de cinema que eu n√£o quero escrever, sou pago para desenvolver id√©ias de outros. A √ļnica coisa que n√£o sei fazer √© o que o ator faz. N√£o quero, tenho vergonha, n√£o entendo como algu√©m fica l√° repetindo uma mesma coisa a noite inteira.(risos)

Que ele n√£o escreveu.

√Č, que ele n√£o escreveu, por mais bonito que seja. Isso quando n√£o √©  ruim mas tem que fazer porque √© trabalho. Isso n√£o me interessa fazer. Ent√£o tudo que o ator me aporta √© sempre uma surpresa. Isso que voc√™ chama de negociar √© porque eu n√£o fa√ßo o que ele faz  Eu conhe√ßo a cara do Eucir, a intelig√™ncia dele e o seu potencial de inven√ß√Ķes f√≠sicas. Ent√£o temos um patrim√īnio de coisas para investigar sobre o que  pode acontecer com um menino que est√° preso numa foto.  Ao longo de dois meses, com dinheiro e  aluguel pago, voc√™ pode explorar isso.  √Č poss√≠vel inventar um monte de coisas do que aparentemente √© nada como uma pessoa numa foto. Eu raramente ensaiava sozinho com o Eucir, era todo mundo ali, m√ļsico,  assistentes, iluminadora... Ficamos brincando de imaginar do mesmo jeito que voc√™ brinca com seu filho e eu com a minha. √Č a mesma coisa, s√≥ h√° uma chave um pouco diferente. 

Você tem um livro chamado O amor é uma dor feliz. Por que essa dor é feliz?

Porque d√≥i, ficar grande d√≥i, pergunte pro seu filho.  Vai chegar um dia em que ele n√£o vai querer mais te ajudar, vai querer te matar e isso ser√° uma dor para ele e para voc√™, porque n√£o √© f√°cil. O amor √© a √ļnica coisa que est√° na m√£o da gente. √Č a √ļnica coisa na nossa vida moderna que as pessoas t√™m obriga√ß√£o de fazer do jeito delas. Amor n√£o estando √† sujei√ß√£o do trabalho, do tempo, do espa√ßo. As pessoas n√£o amam, n√£o t√™m rela√ß√Ķes amorosas porque n√£o querem ou s√£o covardes. Acho importante o amor bom... Minha casa era horr√≠vel. Minha m√£e fazia um almo√ßo de domingo e dizia: "√Č gnocchi". Meu pai dizia: "√Č gnocchi". Meu irm√£o: "√Č gnocchi". Eu: "√Č  gnocchi". E com√≠amos o gnocchi em sil√™ncio, um t√©dio horr√≠vel. Eles se separaram e cada um √© feliz hoje. Minha fam√≠lia precisou ser extinta para funcionar. Como extintos somos muito felizes, n√£o nos vemos, n√£o nos falamos...

Mas não é esse o destino provável de todas as famílias que desejam ser felizes?

Sim, em algum momento. Minha filha tem tr√™s anos e diz que me ama e quer casar comigo. Agora √© o momento disso. A √ļnica sabedoria √© viver cada coisa a seu tempo. Tamb√©m n√£o tenho ilus√Ķes quanto a isso.

Voc√™ j√° declarou que conhecer o Carandiru foi uma experi√™ncia cultural nova, “um mundo triste e desolado que sempre me inspirou”. √Č sempre um mundo triste e desolado que lhe inspira?

Sim...  Tristeza... Tem uma frase super bonita de um fot√≥grafo franc√™s chamado Robert Doisneau que diz:  "Os lugares onde as pessoas sofreram t√™m mais nobreza do que aqueles onde elas se divertem". √Č isso. Existem dois tipos de escritores: acabou a luta de boxe, h√° os que saem com quem ganhou para cheirar coca√≠na e transar com cinco mulheres numa festa. H√° outros que se sentem atra√≠dos pela desgra√ßa, pela tristeza e v√£o ver quem perdeu. Esse √© o que d√° um livro mais interessante. Quando se est√° em uma situa√ß√£o ruim, h√° menos pruridos em mostrar quem se √©. A riqueza √© um verniz, a cultura √© um verniz, o teatro √© um verniz. 

Voc√™ j√° disse que “teatro √© o lugar feliz onde encontro um grupo disposto a enlouquecer junto". Ent√£o, como voc√™ sustenta essa loucura, afinal o teatro √© uma arte de dif√≠cil produ√ß√£o. Como √© a sua experi√™ncia nesse sentido?

Eu aprendi com o cinema que para se fazer filmes bons e com pouco dinheiro tem que se concentrar dramaturgicamente em poucos lugares com dura√ß√Ķes pequenas. Meu primeiro romance come√ßou como uma pe√ßa e acabou virando o filme "Um  c√©u de estrelas" da Tata Amaral. √Č a hist√≥ria de um seq√ľestro que se passa em uma casa. O legal de escrever um mon√≥logo √© que voc√™ tem um texto para teatro, um grande conto para publicar num livro e pode adaptar para cinema tamb√©m. Eu tento fazer textos nesse cruzamento de linguagens. Uma pe√ßa pode virar um romance ou um  filme com pequenos rearranjos dos conte√ļdos. Sempre procurei isso. No caso do teatro, a loucura √© partilhar com seis pessoas, mas a gente estuda, se pauta e trabalha. Loucura n√£o deve ser desperd√≠cio e excesso. T√≠nhamos grana, compromisso e eu pego nota de tudo. Sou muito caxias com dinheiro p√ļblico. Ganhamos o pr√™mio Miriam Muniz da Funarte, depois o Sesc comprou umas apresenta√ß√Ķes. Agora a Caixa nos trouxe para o Rio de Janeiro e para Bras√≠lia. Faremos ainda o interior de S√£o Paulo em 2008 pelo governo do estado de S√£o Paulo.

E "O incrível menino da fotografia" vai virar filme ou romance?

Acho que n√£o. N√£o sei. J√° temos um texto novo mas queremos manter essa pe√ßa no repert√≥rio enquanto fazemos outros mon√≥logos.

Voc√™ lan√ßou um livro chamado As melhores vibra√ß√Ķes - uma colet√Ęnea de suas cr√īnicas sobre sexo publicadas na coluna Macho (do jornal a Folha de S√£o Paulo) que voc√™ escrevia a partir de cartas dos leitores. Em uma dessas cr√īnicas voc√™ diz: "N√£o matar√°s antigos sentimentos de amor. Afinal o mundo da voltas e ex-amantes sempre podem acabar batendo na sua porta outra vez". Isso √© um machismo declarado ou √© realidade mesmo?

Eu escrevi isso?!

√Č  um dos itens do dec√°logo do macho.

Eu nunca escrevi para homem... Leia de novo.

"N√£o matar√°s antigos sentimentos de amor. Afinal o mundo da voltas, e ex-amantes sempre podem acabar batendo na sua porta outra vez".

Você não pensa isso pra você... De certa forma?

Sim... (hesitante) Mas você aqui não estava escrevendo para um homem?

Não, é o contrário. Quando me chamaram para escrever eu disse que gostava muito de mulher para falar mal de mulher.

Mas era pra falar mal?

Não, mas qual é o comportamento do chauvinista? A coluna era muito chauvinista até eu entrar. Quando me chamaram, eu disse que ia fazer uma coluna do ponto de vista de um cara heterossexual que gosta de transar. Para mim, homens e mulheres são iguais, devem responder por tudo igualmente. Quem escrevia era o Xico Sá, que escreve muito bem, mas eu não ia fazer o que ele faz. Gosto de fuder. Não ia destruir o objeto do meu amor. Isso certamente é um decálogo do macho mas do macho moderno.

Ok, você se saiu bem!

Pra que leio tanto livro na vida?! Para alguma coisa tem que servir.... (risos)

Como eram as respostas dos leitores?

Recebia mais emails de mulheres e fazia mais sucesso com o p√ļblico gay do que a coluna gay do jornal. Recebia cerca de 70 e-mails por dia, escolhia um e respondia. Para o restante, eu tinha uma resposta padr√£o: “J√° experimentou falar isso com seu parceiro?“. As pessoas n√£o conversam, n√£o falam o que querem, o que n√£o querem. Eu converso com a minha mulher.

E falavam pra você...

√Č... Eu dizia: “Tem que dizer pro cara, n√£o pra mim. O problema √© seu em n√£o dizer”.

Você acha que diziam depois?

N√£o sei.  √Č uma pena se n√£o falaram porque a √ļnica forma de ser feliz √© ser claro. N√£o conhe√ßo outro.

Há algum escritor especial em sua formação?

Eu acho que sou formado moralmente por Henry Miller. Ele dizia que para escrever voc√™ tem que se conhecer primeiro. Se voc√™ √© um covarde, escreva sobre sua covardia. N√£o precisa ser corajoso como Hemingway, fazer uma aventura na vida para escrever e no fim dar um tiro na cabe√ßa. Viva sua vida, se conhe√ßa, viva a plenitude de sua vida criativa e sexual, foda muito  – isso ele falava de forma muito clara. Se tiver medo de foder, escreva sobre isso porque tamb√©m √© importante. Camus, por exemplo, tudo que sei de pol√≠tica aprendi com ele.

Muito obrigada, Fernando, por esse encontro.

Obrigado a você.

 

O incr√≠vel menino da fotografia tamb√©m √©  Daniela Garcia (dire√ß√£o de arte, cenografia e figurino), Davi de Brito (ilumina√ß√£o), Eucir de Souza (interpreta√ß√£o),  Marcelo Pellegrini (fotografia), Marlene Salgado (dire√ß√£o de produ√ß√£o) e Vivien Buckup (prepara√ß√£o corporal).

 

Opera Omnia (até agora) de Fernando Bonassi

 

Livros

Fibra √ďtica

SP/Brasil

O amor em chamas

100 histórias colhidas na rua

100 coisas

Passaporte

As melhores vibra√ß√Ķes

Violência e Paixão

Histórias Extraordinárias

 

A boca no mundo

 

O menino que se trancou na geladeira

O amor é uma dor feliz

Um céu de estrelas

O céu e o fundo do mar

Prova contr√°ria

Crimes conjugais

Sub√ļrbio

 

Di√°rio da Guerra de S√£o Paulo

 

T√° louco!

Uma carta para Deus

Vida da gente

A incrível história de Naldinho/um bandidão ou um anjinho?

Declaração universal do moleque invocado.

Por um beijo

Entre vida e morte - Casos de polícia

O pequeno fascista

 

Peças de Teatro

As coisas ruins da nossa cabeça

Preso entre ferragens

Telefone

√Ēnibus

Um céu de estrelas

Boteco

Preso entre ferragens

São Paulo é uma festa

Eu n√£o sou cachorro

Descartes

Souvenirs

Três cigarros e uma lasanha

Pequeno sonho em vermelho

Mudança

Prova contr√°ria

A menina que chorava que nem louca

Ovo frito

Centro nervoso

O incrível menino da fotografia

 

Roteiro de Cinema

Os Matadores, direção de Beto Brant

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©2008 Andr√©a Carvalho Stark
©2008 Publication Scene4 Magazine

 

Andréa Carvalho Stark é escritora no Rio de Janeiro.
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